quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A carta de Sofia




O guerreiro que luta não somente por ele, mas pra dar cobertura pra quem faz a linha de frente, ele sim merece a medalha de honra.


Um dia desses ouvi a conversa de dois senhores enquanto esperava o ônibus. Aparentavam ter por volta de 70 anos.
Peguei a história já pelo meio e segui ouvindo durante a viagem inteira. Um deles falava em como amava a sua esposa e companheira, casados há 46 anos, enquanto o outro estava com a cabeça baixa, parecendo refletir, quando o que se ouviu foi um fraco e seco: - eu sinto!

Era de se imaginar o ocorrido. Provavelmente ele era casado e sua esposa havia falecido. Foi o que se ouviu perguntar pelo outro senhor, mas a resposta foi negativa.

O que se pensar? Um divórcio? Mas por quê expressar tanta tristeza ao falar sobre isso?

A história contada por ele é indescritível, pois não consegue-se expressar tamanho sentimento em uma simples folha de papel (ou esse blog).

O velho senhor morava em São Paulo, capital, por volta das décadas de 1950/60, vindo do norte do país. Já no 1º mês conseguiu ser empregado em uma fábrica de tecidos, na linha de produção, próximo ao setor onde ficavam as costureiras.

A vida era simplesmente trabalhar, pois ficava até mais tarde na empresa para lucrar um pouco mais no fim do mês. Morava sozinho em uma quitinete alugada próximo à Praça da República, no centro da cidade.

Costumava passar os dias de folga observando as pessoas que vinham e iam, tentando imaginar como era a vida de cada uma delas. Casada? Solteira? Tem filhos? Será que é mais uma igual a mim? e em como seria a sua futuramente. E por vezes, tendo seu tempo tomado pelo serviço, não tinha amigos. Apenas juntava seu dinheiro para enviar a família, que morava em Belém.

Certo dia foi designado para exercer um serviço junto com as moças da costura, foi quando a conheceu. Sofia era o seu nome. Moça de família pobre, trabalhava para ajudar no sustendo de seus pais e irmãos.

Os dias foram passando e os olhares trocados se cruzando cada vez mais intensamente.
Em um dia de chuva, já escurecendo a noite, ele se ofereceu para acompanhá-la até sua casa, e no decorrer do caminho conversaram sobre suas vidas, suas expectativas e sonhos. Era a paixão que estava crescendo entre eles que fez com que um sorriso fosse trocado, e em um gesto singelo ele beijou sua mão se despedindo. Podia-se sentir o amor que iria florescer.

Os dias seguintes que passaram juntos, com o velho banquinho da praça, o pipoqueiro fazendo graça, tudo na cena de um verdadeiro romance, não deixava duvidas sobre o que um sentia pelo outro.

Certo dia, passado mais de um mês, ele chega na fabrica meia hora antes, como de costume, ajeita seu uniforme e passa no corredor onde costumava encontrá-la junto com as outras costureiras, mas nesse dia ele não conseguiu vê-la, talvez chegaria mais tarde. No fim do expediente ele acelera seus passos para ver se consegue localizá-la antes que vá embora. No entanto, lhe disseram que ela não aparecera na fabrica naquele dia, e como já era tarde da noite não poderia ir até a casa dela, iria ser um incômodo, talvez estivesse doente.

Mais um dia se passou e sem notícias dela foi procurá-la em sua casa, deparando-se com a notícia de que não havia mais ninguém morando por lá. Era confuso para ele, e tentava imaginar o que havia acontecido, quando chega uma senhora e lhe entrega um bilhete. O coração dele parecia apertado ao ler as tristes palavras deixadas por ela.

Sofia ele já não mais veria, pois havia se mudado para Recife, onde seu pai havia consegui um trabalho qualificado, que poderia resolver os problemas da família, mas prometeu escrever para ele toda a semana, e que não mais conseguiria impedir que aquele amor fosse adiante, pois sentia que ele era o homem com quem ela iria viver sua vida, e em resposta prometeu entregar o seu amor somente a ela, e amá-la pelo resto de sua vida.

A distância era difícil e a cada dia a saudade ia aumentando e se misturando ao desejo de reencontrá-la, formando um anseio incontrolável, mas o mesmo ela sentia, e ambos se consolavam com as palavras de amor transmitida através das cartas.
Passaram-se alguns anos, foi quando ele fez a primeira viagem para encontrá-la. A sensação de viver aquele momento - descrevia o senhor - era além do que qualquer pessoa pode imaginar sentir, e os que sentem não podem descrevê-la, apenas sentir.

Conseguiu passar dois dias ao lado dela, mas a despedida era inevitável. Os primeiros sete passos em direção ao trem foram suportados sem nenhuma lágrima, mas ao olhar para trás a viu em prantos nos braços de seu pai. Sem fraquejar virou-se e seguiu em diante, não conseguindo mais conter as lágrimas.

Alguns dias se passaram e como de costume ele recebeu uma carta de Sofia.
Parecia espantado ao olhar para o envelope, com letras que não eram de sua amada.
Os dizeres pareciam uma faca fincada sobre seu coração.
Sofia retirou sua própria vida.
Não havia uma razão ou qualquer explicação, mas ela não havia suportado a dor do amor.

E o senhor dizia que o amor era maior que a saudade, e algo maior não pode ser desacreditado. Havia planos para eles, a história não teria esse fim se ela conseguisse suportar a distância.
Eram jovens e a vida ainda lhes reservava momentos bons.
Esse é um caminho para dois, onde um não dá um passo sozinho.

Existem pessoas que pensam que o sofrimento que vivem é o de trabalhar, de não poder se divertir todos os dias, quando na verdade o maior dos sofrimentos é não poder ter a pessoa que ama ao lado.


O senhor tentou continuar na cidade, mas acabou por retornar para sua terra natal, junto de sua família.
Conseguiu um novo emprego, acabou por se casar e ter dois filhos, hoje já formados e morando sem São Paulo, sendo que de vez em quando vem visitá-los.

A vida as vezes é injusta conosco, mas quando não podemos mudar a situação temos que nos conformar e nos adequar.
Hoje o senhor diz que tem um carinho pela sua esposa, mas que o amor dele foi prometido a apenas uma mulher, e assim ele levou ela pra sempre consigo.

....
Fim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário